PostHeaderIcon O tal do vício.

Certas coisas tornam-se bem estranhas quando isentas de qualquer racionalidade, principalmente aos olhos daqueles que reúnem condições suficientes para entender o quão absurdo tais situações possam parecer. A caminho de Porto Alegre, para participar do nona edição do Fórum Internacional de Software Livre, onde iria apresentar uma palestra sobre segurança de redes e software livre presenciei uma dessas situações.

Devido a impossibilidade de pousar na capital gaúcha, em decorrência de condições metereológicas adversas, comuns essa época do ano na região, logo veio o anúncio, por parte do piloto: pousaríamos em Florianópolis até haver uma sinalização de que a aterrisagem em Porto Alegre poderia ser realizada com a segurança devida. Prudência que nem sempre combina com os planos dos passageiros, muitas vezes, alheios à máxima de que a segurança de todos está acima de quaisquer compromissos ou planos pessoais. Passados alguns minutos, já em solo catarinense, a aeronave ficou um pouco distante do aeroporto e, apesar da porta ter sido aberta, todos os passageiros permaneceram a bordo. Um grupo de passageiros, no qual me incluo, levantou-se de sua poltrona para poder alongar-se um pouco de forma a estar preparado para seguir viagem tão logo fosse recebida a devida autorização.

Logo percebi que estava no mesmo vôo de Sérgio Amadeu, amigo já conhecido de outros eventos do gênero, um dos nomes mais ativos do software livre no cenário nacional e com quem comecei a conversar. Poucos minutos depois, mesmo sem fazer qualquer esforço, era possível perceber que havia alguma discussão tornando-se cada vez mais colarosa na parte da frente da aeronave. Tratava-se de uma senhora que reinvindicava junto à tripulação, o direito de fumar um cigarro na porta da aeronave. Sendo alertada a respeito da óbvia proibição, a senhora propôs descer pela escada conectada à aeronave para poder fumar o seu cigarro a alguns metros do avião, na pista do aeroporto. Novamente, outra negativa por parte da comissária de bordo. Após várias várias ameaças de acender o objeto de satisfação à revelia das instruções de segurança passadas pela tripulação, não houve outra saída senão alertar a já descontrolada senhora que a polícia seria acionada para resolver a questão caso o centro das discussões, o cigarro, fosse, de fato, aceso.

Nesse momento, outros passageiros, vendo a continuação do vôo ameaçada pelo desejo voraz da senhora em degustar o seu cigarro, não demoraram para envolver-se na discussão. Antes que a situação tomasse maiores proporções, veio a tão esperada autorização para decolagem rumo à capital gaúcha. A porta da aeronave foi fechada e, pelo bem comum, a senhora resolveu voltar à sua poltrona. Mesmo assim, ainda foi possível ouvi-la resmungando: “Agora eu vou fumar um cigarro de qualquer jeito. Lá atrás, dentro do banheiro…”. O culpado por tudo isso? O tal do vício. Não demorou muito para uma reflexão ocupar meus pensamentos, numa espécie de fusão entre o assunto de meu compromisso em Porto Alegre e a situação que acabava de presenciar: pelo mesmo motivo, muitos usuários acabam viciando-se em determinadas soluções a ponto de desconsiderar outras alternativas, mesmo que elas, racionalmente, representem mais vantagens sobre aspectos econômicos e tecnológicos, por exemplo. Novamente, é o vício que faz com que, que muitos usuários de Microsoft Windows protejam-se afirmando que ambientes GNU/Linux são mais difíceis para o usuário final, mesmo sabendo que é crescente o número de instituiçõs que vem adotando o sistema do pingüim em seus ambientes corporativos. O mesmo, costumeiramente, acontece com relação ao OpenOffice (ou sua vertente canarinha, o Br-Office) quando posto frente a frente com o Microsoft Office. Muitas vezes, a única razão para tal defesa é, novamente, ele, um dos maiores parceiros da irracionalidade: o vício.

Sob o ponto de vista da segurança, o mesmo paralelo permanece. É o vício em não mudar certas rotinas e hábitos de trabalho que torna a implantação de procedimentos de segurança, na maioria das vezes, uma tarefa árdua e pouco aceita pelos usuários. Por exemplo, proteger os “pen drives” corporativos com uma rotina de criptografia que possa garantir a segurança das informações mesmo diante das comuns perdas desses pequenos meios de armazenamento, é um procedimento simples e muito eficaz. Entretanto, a necessidade de manipular uma senha para acessar os dados seria, provavelmente, um motivo de rejeição por parte dos usuários.

Infelizmente, da mesma maneira que para a senhora fumante, nem sempre, chicletes de nicotina e outras alternativas sejam capazes de controlar seu voraz desejo de tragar um cigarro, não existem soluções semelhantes para vencer a resistência e o vício dos usuários em determinadas soluções. É preciso, para cada caso, lançar mão da criatividade para encontrar uma solução eficaz. Aí está o maior desafio.

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