PostHeaderIcon A universidade e o software livre (Parte II): a serviço dos monopólios

Apesar das universidades públicas representarem, na maioria dos casos, as melhores alternativas para a formação acadêmica no Brasil, não é novidade pra ninguém que essas instituições sofrem, há algum tempo, da falta de recursos financeiros. Salvo raras excessões, o fato é que a ausência de investimentos impede a melhoria das estruturas físicas e laboratórios, aquisições de mais títulos para as bibliotecas, aumento das remunerações dos professores, investimentos em bolsas de pesquisa e estágios acadêmicos, dentre outros. Diante de tantas dificuldades, como é possível ainda se encontrar inúmeros softwares proprietários instalados nas universidades públicas?
Uma primeira análise certamente que irá constatar que parte significativa desses aplicativos encontra-se em utilização mesmo sem a devida legalização das licenças de uso. Na linguagem popular, pra ser mais direto: PIRATARIA! Deixamos, entretanto, os desdobramentos dessa primeira alternativa pra primeira parte dessa discussão. Num segundo momento, há uma parcela desses aplicativos que foi "doada" pelas grandes empresas de software proprietário a essas instituições. Muito embora essa possa parecer uma alternativa interessante para a aquisição de software sem a necessidade de investir dinheiro público (escasso) com o pagamento das licenças de uso, é primordial analisar as consequências de iniciativas como essas.

É certo que as doações de algumas licenças acabam diminuindo o lucro das empresas que detém os direitos sob os softwares dados de presente. Entretanto, esse "prejuízo" não representa nada frente ao que se pode colher como fruto dessa iniciativa. Aliás, classificar tal mecanismo como prejuízo consiste de uma visão míope uma vez que, de fato, trata-se de um investimento. E dos bons, diga-se de passagem. As razões são muito simples: doar software proprietário às instituições de ensino é uma forma simples e cômoda de pegar carona no processo de formação acadêmica para treinar, a longo prazo, os alunos nas soluções estratégicas das empresas doadoras. Diga-se de passagem, com dinheiro público. Com isso, se estabelece, a médio e longo prazo, uma forma de criar representantes anônimos de tais soluções dentro das empresas, uma vez que os futuros profissionais irão valer-se no mercado de trabalho, muito possivelmente, das ferramentas com as quais foram capacitados durante o processo de sua formação.

O perigo maior, em minha análise, não está em mostrar tais soluções, mas condicionar os alunos a criar sinônimos entre conceitos e ferramentas, fomentando a idéia de que existe uma alternativa de sistema operacional, uma alternativa de banco de dados, umas poucas alternativas de linguagens de programação, dentre outros. Em linhas gerais, muitas vezes sem saber, o que se constata é que existem inúmeras instituições de ensino superior que agem, silenciosamente, à serviço dos grandes monopólios de software. Em outras palavras, instituições públicas que privilegiam umas poucas instituições privadas de alcance mundial.

Nesse mesmo contexto, estão outras iniciativas que vão além da mera doação de software proprietário. O que dizer, por exemplo, do shared source da Microsoft? Esse programa permite uma espécie de parceria com algumas instituições de ensino que viabiliza, inclusive, a exibição de trechos de códigos de alguns de seus produtos. Entretanto, de que adianta tal compartilhamento para a formação do aluno se todas as linhas de programação estão blindadas por licenças de software proprietário e impedem, portanto, que o aluno as utilize em outras situações? Nesse caso, o compartilhamento pode ter um objetivo curto e direto: treinar pessoas para trabalhar em seus produtos impedindo-os, por outro lado, sob a proteção das suas respectivas licenças, o aproveitamento daquele código em produtos concorrentes.

Existe ainda uma parcela considerável dos professores que tiveram em suas formações acadêmicas o mesmo condicionamento técnico em soluções proprietárias e que acabam refutando a possibilidade de trocar, mesmo que por comodismo, suas práticas técnicas por soluções em software livre que privilegiem o compartilhamento do conhecimento e o livre acesso à informação.

Por fim, a questão do software livre em universidades públicas deveria ser tratada como uma política institucional bem definida e compartilhada entre docentes e discentes.

Leave a Reply