PostHeaderIcon A universidade e o software livre (Parte I): a pirataria acadêmica

Em minha perspectiva, são muitas as relações existentes entre universidade e software livre. Em linhas gerais, as universidades, fundamentalmente as públicas, deveriam estar entre os mais significativos motores propulsores do processo de software livre. Entretanto, essa não é a realidade da maioria das instituições de ensino em nosso País. Motivado por um bate-papo descontraído com alguns amigos logo após o término de um evento de software livre, resolvi publicar algumas considerações pessoais sobre o tema na forma de uma série de curtos artigos. Há muito pano pra manga e o primeiro aspecto trata a respeito da disseminação de cópias ilegais de software.
Estruturas de dados, métodos de desenvolvimento e especificação de software, bancos de dados, redes de computadores, sistemas operacionais, são alguns dos muitos itens abordados no decorrer de um curso de computação tradicional. Entretanto, são muito raros os casos onde os alunos são orientados formalmente, em uma disciplina específica, por exemplo, quanto a licenciamentos de software. Em outras palavras, a realidade consiste de um cenário de completa alienação em massa quanto as perigosas implicações de algumas licenças de software e das muitas restrições impostas por elas na grande maioria dos casos. Uma vez concluído o curso de graduação, o que se vê no mercado são profissionais preparados tecnicamente para desenvolver soluções de software mas, por outro lado, sem a mínima formação para manter em seus softwares, o mesmo nível colaborativo de desenvolvimento vivido ao longo dos seus anos na academia por meio da utilização de uma licença de software livre, por exemplo.

Aliás, o ambiente colaborativo dentro das universidades muitas vezes ultrapassa seus limites. Muitos professores levam para a prática de suas disciplinas, aplicativos proprietários sem o devido licenciamento. Não contente, muitas vezes esse mesmo docente exige que os alunos do curso utilizem dessas soluções sem atentar-se para o fato de que utilizar esses aplicativos significa exigir que o próprio aluno ou a instituição adquira as suas licenças de uso. Entretanto, a prática comum é o professor disponibilizar suas próprias versões ilegais de software para que os alunos as copiem. É nesse momento, que os futuros profissionais de computação aprendem a banalizar a cópia ilegal de software, sem dar a menor importância para o crime que está cometendo naquele instante. É esse mesmo profissional que irá ao mercado, passados alguns anos, comportando-se de maneira semelhante a que aprendeu dentro do meio universitário.

Se esse é um problema sério para os cursos relacionados à área de computação, o que se pode dizer de outros cursos universitários que também utilizam computadores e softwares para auxiliar no desenvolvimento de suas atividades diárias haja vista que os próprios profissionais da área de software negligenciam, em sua maioria, essas questões?

Para o profissional de computação, negligenciar a disseminação de software proprietário com licenciamento ilegal é uma questão ética fundamental tal qual para o médico que não pode aprender os procedimentos de sua profissão e utilizar de práticas que ferem o clássico juramento de Hipócrates proferido no momento da colação de grau. É preciso ir além dos ensinamentos técnicos. É preciso nortear a ética profissional dos alunos de computação para que eles estejam capacitados a orientar com precisão os colegas de outras profissões ainda durante as suas formações acadêmicas.

 

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